Há Dez Mil Anos Atrás

📅 Publicado em: 21/09/2008 às 19:40 🏷️ Categoria: Rock BR
Há Dez Mil Anos Atrás
Raul Seixas foi o artista brasileiro que talvez estivesse mais em sintonia com as tendências mundiais da arte que professava a música de sua época.

Por isso, para falarmos sobre ele, é necessário nos localizarmos precisamente no tempo e no espaço.Apelidado de Rauzito, como era chamado na família, Raul era um garoto tímido, muito apegado aos livros que encontrava abundantemente na seleta biblioteca de seu pai.

Depois de devorar livros, no melhor sentido antropofágico do termo, a coisa que Rauzito mais gostava de fazer era contar histórias que ele mesmo criava através de sua intelectualidade.

Até o início de sua adolescência, porém, o fiel ouvinte e leitor dessas histórias foi seu irmão mais novo, Plínio.

Para ele, Rauzito escreveu e desenhou várias histórias em quadrinhos povoadas de personagens tão estranhos quanto curiosos, entre os quais incluía, literalmente, Deus e o Diabo.

A adolescência de Rauzito transcorreu durante a era de ouro do rádio nacional. Era o apogeu das carreiras de muitos astros da canção brasileira que, logo depois, conheceriam o declínio graças ao advento da televisão.

Eram, porém, tempos de prosperidade e otimismo e, para uma família de classe média como a dele, o máximo era possuir em casa uma rádio-vitrola estereofônica.

Foi por meio de um desses aparelhos que Rauzito ouviu incansavelmente a uma profusão de baiões, boleros, tangos, sambas-canção e, por influência de uns amigos do consulado norte-americano que ficava próximo a sua casa, viciou-se em ouvir um ritmo novo e estranho chamado Rock 'n' Roll.

Como boa parte da produção musical desse período divulgava-se e propagava-se principalmente através do cinema, o rock sem demora tornou-se um ritmo proscrito e associado à delinquência quando da exibição do filme Blackboard Jungle (conhecido como "Ao Balanço das Horas" no Brasil), inaugurando uma sucessão de salas de projeção depredadas pela juventude ensandecida por todo o país.

Com o ritmo tribal do rock 'n' roll, o tímido Rauzito — a exemplo de seu colega de profissão na Inglaterra, chamado John Lennon — sentiu que, talvez pela primeira vez na vida, era parte integrante de um grupo de pessoas, jovens como ele, que se espalhava pelo mundo todo e que queria dizer, ou melhor, gritar a que veio; ou seja, arrebentar com os tabus da moralidade vigente e celebrar a vida em sua plenitude.

Com seu talento literário, não foi difícil produzir, dentro de um curto espaço de tempo, uma quantidade considerável de poemas e, graças à sua ótima informação sonora, encaixá-los em fraseados musicais para declarar ao mundo estas intenções, que eram várias.

Mas, para o jovem Rauzito, logo não foi suficiente apenas ouvir aquele som fantástico e sair por aí imitando a postura e o gestual de seus ídolos, cantores e atores de cinema.

Ele tinha que compor, cantar e empunhar uma guitarra também.

No final dos anos 50, a juventude brasileira começava a dividir-se com relação ao rock 'n' roll.

Havia uma parcela que acreditava ser tamanha penetração de um ritmo alienígena perniciosa à identidade cultural da nação, de um lado.

Do outro, estavam os que veneravam o rock 'n' roll acima de qualquer visão ideológica.

Os primeiros deleitavam-se com intermináveis discussões sofísticas e politizadas em mesas de bares e adoravam a bossa-nova; para eles, a guitarra elétrica era considerada um instrumento de dominação cultural estrangeira antes de ser meramente um instrumento musical.

Para a turma do Rock, o grande barato era agir e comportar-se igual a todo mundo, tribalmente mesmo, como a imensa maioria dos jovens de todo o mundo o fazia, sentindo-se, assim, cidadãos do mundo.

Em Salvador, terra natal de Raul, nesta época, o reduto da bossa-nova era o Teatro Vila Velha e, entre seus frequentadores, incluíam-se Caetano Veloso e Gilberto Gil.

A turma do rock encontrava-se no Cine Roma e, logicamente, Rauzito era presença constante ao lado de sua recém-formada banda, Os Panteras.

Ali, bem como em muitos outros lugares, Raul e os Panteras tocaram muitas vezes, servindo, inclusive, como banda de apoio para vários artistas que começavam a se consagrar com o Rock nacional dentro daquilo que, mais tarde, foi chamado de Jovem Guarda.

Fotos Correspondentes

Nenhuma foto adicional cadastrada para esta notícia.